Libras no currículo é uma linha que muita gente escreve errado: ou como uma habilidade qualquer, ao lado de Word e trabalho em equipe, ou como um certificado de curso que nunca mostrou uso. Quem lê não sabe se você aprendeu o alfabeto manual num fim de semana ou se consegue atender uma pessoa surda sem intermediário. Libras é uma língua, e por isso entra na seção de idiomas, com nível e um uso real que você consiga explicar numa entrevista. Este guia mostra onde colocar, como escolher o nível e o que fazer se ainda está começando.

Libras vai na seção de idiomas, e não na lista de habilidades?

Vai na seção de idiomas. A Lei nº 10.436/2002 reconhece a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão, e o Decreto nº 5.626/2005 regulamentou essa lei. Libras é uma língua, com gramática e vocabulário próprios, e não um gesto que se aprende de passagem. Quem lê o currículo espera encontrá-la ao lado de inglês ou espanhol, com a mesma informação: o nível e como você o adquiriu. O texto do decreto no site do Planalto é a fonte para quem quiser conferir a regulamentação.

Antes: Habilidades: Word, Excel, Libras, trabalho em equipe.

Depois: Idiomas: Português (nativo), Inglês (intermediário), Libras (básico, curso presencial de 60 horas, com prática semanal no atendimento da recepção).

A segunda linha não diz nada além do que a pessoa fez. Se você não tem prática fora do curso, escreva o curso e deixe a prática de fora. Uma linha honesta e curta vale mais do que uma lista que a entrevista desmonta na primeira pergunta.

Qual nível escrever: básico, intermediário ou fluente?

Escolha o nível pelo último uso que você consegue descrever, e não pelo quanto se sente confiante. A escala do inglês, com o Quadro Europeu, não se aplica direto à Libras, e nem todo recrutador tem uma referência para ela. Por isso o nível precisa vir acompanhado de uma frase que o explique. A mesma régua vale para outros idiomas, e o guia sobre nível de inglês no currículo mostra como escrever cada degrau sem exagerar.

  • Básico. Você reconhece o alfabeto manual, faz apresentações simples e entende perguntas curtas quando a pessoa repete ou desacelera. Escreva básico quando a conversa depende de repetir ou de apoio escrito.
  • Intermediário. Você mantém uma conversa sobre rotina e assuntos de trabalho, pede esclarecimento quando não entende e acompanha a mudança de assunto. Costuma ser o nível de quem atende alunos ou clientes com alguma regularidade.
  • Avançado ou fluente. Você conduz uma reunião, explica um processo ou acompanha uma conversa rápida sem depender de escrita. Só escreva esse nível se alguém que usa Libras no dia a dia confirmaria a sua descrição, ou se você tem uma formação que comprova.

Se o nível intermediário parecer modesto, descreva a conversa que você tem de verdade. Uma linha como “conversa sobre rotina de trabalho com colegas surdos” diz mais do que um adjetivo, e a entrevista vai testar exatamente essa situação.

Curso de Libras entra como formação, e o que ele precisa mostrar?

Um curso entra na seção de formação ou de cursos, com o nome, a instituição e a carga horária. Sem prática depois dele, o curso mostra o início do estudo, e não o nível. Por isso escreva o curso como concluído ou em andamento, nunca como fluência.

Antes: Curso de Libras.

Depois: Libras básico, curso de 40 horas concluído em associação de surdos da cidade, com três meses de prática em atendimento ao público.

Se o curso ainda não acabou, escreva em andamento. Quem lê um curso em andamento aceita a informação. Quem descobre, na entrevista, que o curso não foi concluído deixa de confiar no resto do currículo.

Como mostrar o uso de Libras numa linha de experiência?

Libras ganha peso quando aparece numa linha de experiência, com a situação em que você a usou. Escreva o público, a tarefa e o resultado, sem adjetivo. A língua entra como o instrumento do trabalho, e não como o título da função.

Antes: Atendimento em Libras a clientes.

Depois: Recepção de clínica: atendi em Libras os pacientes surdos que chegavam sem acompanhante, agendei consultas e encaminhei cada caso ao setor certo no mesmo atendimento.

A segunda versão diz quem era o público, o que você fazia e em que ponto a língua entrou. Essas três informações são exatamente o que a entrevista pergunta, e a resposta já estará no papel.

Se você ainda não tem uso real, o que fazer antes de escrever?

Pratique antes de escrever. Algumas formas de criar um caso real para contar, sem inventar nada:

  • Voluntariado em espaço que atende pessoas surdas. Escola, igreja ou associação costumam precisar de quem converse com quem usa a língua. Descreva a função exata e a frequência, como “duas tardes por semana”.
  • Grupo de prática com pessoas surdas. Nesses grupos a conversa acontece em Libras, e não em português com intermediação. Anote o que você já conseguia conduzir sem apoio, porque essa é a linha do nível.
  • Projeto pequeno no trabalho. Um material com sinais para a equipe ou a tradução de um aviso interno já é um uso real. Só conte o que você de fato entregou.

Nenhuma dessas opções precisa de nome de empresa famosa. O que conta é o contexto verdadeiro, com o que você fez e por quanto tempo.

Quando a vaga pede Libras como requisito, o que muda?

Se o texto da vaga diz Libras fluente e você tem o nível intermediário, o caminho honesto não é escrever mais forte. É decidir se a candidatura faz sentido. O anúncio precisa dizer um nível, e é esse nível que o recrutador vai testar na conversa. O guia sobre como comprovar um requisito obrigatório mostra como tratar esse caso sem forçar a palavra.

Mostrar Libras obriga a falar sobre deficiência?

Não. A língua é uma habilidade, e a decisão de mencionar a deficiência, a surdez ou qualquer outro tema pessoal é sua. Você lista a Libras com o nível e o uso, sem precisar de CID, laudo ou explicação sobre a sua história. Se você é PcD e quer tratar do assunto no currículo, o guia de currículo PcD sobre onde colocar CID e laudo mostra o que cabe e o que fica de fora.

O que conferir antes de enviar um currículo com Libras?

A regra que resume tudo vale para qualquer língua: escreva o nível que você consegue sustentar e o uso que você consegue contar. Se a linha de Libras não tiver nem uma coisa nem outra, ela vira enfeite, e a primeira pergunta na entrevista desfaz o enfeite. Antes de enviar, compare a vaga com o currículo. Cole o texto do anúncio na análise gratuita do AjustaCV. Ela não pede cadastro e mostra quais termos da vaga o seu currículo já tem e quais ainda faltam. Se Libras aparece no anúncio e não aparece no seu texto, você já sabe em qual linha escrever.


Perguntas frequentes

Libras entra como idioma no currículo?

Sim. A Lei nº 10.436/2002 reconhece a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão, por isso ela vai na seção de idiomas, ao lado de inglês ou espanhol, com o nível e a forma como você aprendeu. Colocá-la entre as habilidades gerais, como Word ou trabalho em equipe, tira justamente a informação que o recrutador procura.

Curso de Libras no currículo vale a pena?

Vale, na seção de formação ou de cursos, com nome, instituição e carga horária. Um curso sozinho mostra o começo do estudo, e não o nível de uso. Se você já praticou com alguém que usa Libras, descreva essa prática numa linha de experiência, porque ela é o que comprova o nível que você escreveu.

Posso escrever Libras intermediário se só sei o básico?

Não. O nível é a parte que a entrevista testa, geralmente com uma conversa simples em Libras. Se você conhece o alfabeto manual e alguns sinais do dia a dia, escreva básico. Escrever intermediário e não conseguir conduzir uma conversa cotidiana cria dúvida sobre tudo o que está no seu currículo.

Libras conta como idioma estrangeiro?

Não. A Libras é a língua da comunidade surda brasileira e é reconhecida em lei como meio de comunicação no país, por isso não entra como língua estrangeira. Na prática, a vaga pode tratá-la como idioma, e nesse caso o nível precisa ser descrito com a mesma clareza que você usaria para o inglês.

Preciso dizer que sou surdo para colocar Libras no currículo?

Não. Libras é uma habilidade, e a decisão de mencionar deficiência ou surdez é sua. Você pode listar a língua sem informar CID ou laudo e sem contar nada da sua história pessoal. O que o recrutador lê é o nível e o uso que você descreveu, e não o motivo pelo qual você aprendeu.

Libras serve para vaga de atendimento ao público?

Serve, quando você consegue descrever a conversa que teve. Em atendimento, a linha forte mostra o público, a tarefa e o ponto em que a língua entrou: quem era atendido, o que você resolvia e por que a Libras foi necessária. Libras só na lista de idiomas, sem essa linha de experiência, não tem o mesmo peso.

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