Acessibilidade no currículo costuma aparecer como uma palavra solta no fim da lista de habilidades, e o recrutador passa por ela sem fazer pergunta nenhuma. Ela ganha peso quando você conta onde o seu trabalho tocou a acessibilidade: qual parte da interface você tornou usável com teclado, para quem usa leitor de tela, o que você mediu e o que corrigiu. Não é preciso certificado para isso. É preciso descrever uma decisão que você consegue defender numa conversa técnica.

Em qual etapa do projeto você tocou a acessibilidade?

Acessibilidade não é uma tarefa só. Ela entra em pelo menos quatro momentos de um projeto digital, e cada um pede uma linha diferente no currículo.

  • Pesquisa. Entrevistas ou testes com pessoas que usam leitor de tela, zoom ou navegação só pelo teclado. Se você conduziu uma sessão assim, escreva quantas pessoas participaram e o que mudou no fluxo depois.
  • Design. Cores com contraste suficiente, hierarquia de títulos, foco visível em botões e informações que não dependem só da cor para serem entendidas. Quem desenha essas decisões precisa nomear a decisão, não a ferramenta.
  • Implementação. Elementos HTML certos (botão é botão, link é link), rótulos em todos os campos e nomes acessíveis em ícones. Quem escreve o front-end costuma ser o único que vê esse trabalho, e por isso precisa nomeá-lo.
  • Validação. Teste com leitor de tela, navegação só com teclado e uma verificação automatizada seguida de revisão manual. A ferramenta automática pega uma parte dos problemas, e a revisão pega o resto. Se você fez as duas, descreva as duas.

Escolha só as etapas que você executou de fato. Um designer que desenhou o componente e pediu revisão a um dev não fez a implementação, e listar as quatro etapas é um exagero que a primeira pergunta técnica desfaz. Quem vem do design gráfico e migrou para interfaces encontra o mesmo caminho, descrito no guia de currículo de designer gráfico com portfólio.

Antes: Conhecimento em acessibilidade digital e boas práticas de interface.

Depois: Ajustei o cadastro do app para funcionar só com teclado e leitor de tela, com rótulos em todos os campos e erros anunciados em voz alta. O teste com leitor de tela na tela de pagamento passou de 9 apontamentos para 2.

WCAG pode ir no currículo, mas o nível só se você conferiu os critérios

A WCAG é o conjunto de diretrizes do W3C que as equipes usam como referência para acessibilidade na web. A vaga costuma citá-la pelo nome, e é o termo que o recrutador procura primeiro. O erro comum é escrever a sigla com um nível, A, AA ou AAA, sem ter medido nada contra ele.

Escreva a versão e o nível só quando verificou os critérios daquele nível. Dizer que aplicou o nível AA sem ter checado contraste nem foco é uma afirmação que a entrevista desfaz em dois minutos. Se você conhece a diretriz mas não a aplicou em projeto, a linha certa está na formação. Quando a vaga exige o termo como requisito e você não tem a experiência, o caminho é o que está em como comprovar um requisito obrigatório.

Antes: Aplicação de WCAG em todos os projetos.

Depois: Revisei as telas de checkout contra os critérios de contraste, foco visível e nome acessível de botões da WCAG 2.2, nível AA, e registrei em planilha o que passou e o que precisou de ajuste.

Contraste se mede, e a palavra acessibilidade não prova que você mediu

Contraste é o item mais fácil de conferir e, por isso, o mais fácil de fingir. Use uma ferramenta que calcule a relação entre texto e fundo e escreva o resultado que ela deu. Se o texto secundário da marca ficava abaixo do mínimo, a correção e a cor nova são o dado da linha.

Cuidado com a cor de marca. Um tom bonito pode falhar em texto pequeno sobre fundo claro. Ajustar a cor é decisão de produto, e quem propôs a mudança com medição tem mais a mostrar do que quem apenas aplicou a cor que o time já tinha.

Antes: Atenção a contraste de cores em todas as telas.

Depois: Medi o contraste dos textos de 14 telas do app de agendamento e propus trocar três tons de cinza, aprovados pela equipe de produto. Os textos de corpo passaram a atingir o mínimo do nível AA.

Teste com leitor de tela e teclado entra como ação, não como habilidade

Leitor de tela e navegação por teclado são as duas formas de uso que mais revelam problemas. Se você testou, a linha descreve o fluxo que percorreu e o que encontrou. Se nunca usou um leitor de tela de verdade, não escreva que domina. Vale fazer um teste antes da entrevista, porque ouvir uma tela sem olhar para ela é diferente de imaginar.

  • Navegação por teclado. Percorra o fluxo principal só com Tab, Enter e as setas. Anote cada ponto em que o foco some ou cai num elemento sem função, porque é ali que o usuário desiste.
  • Leitor de tela. Ouça a tela com um leitor instalado no seu sistema. Se um botão é lido apenas como botão, sem dizer o que faz, o nome acessível está faltando.
  • Texto ampliado. Aumente a fonte do sistema e veja se algum texto corta ou sai da caixa. A checagem é simples e costuma revelar layouts que quebram antes de qualquer outro problema.

Antes: Testes de usabilidade e de acessibilidade.

Depois: Testei o fluxo de compra de ingressos só com teclado e com leitor de tela. Encontrei oito botões sem nome acessível e um modal que prendia o foco. Corrigi os dois problemas antes do lançamento.

Quem escreve texto, código ou atendimento também tem acessibilidade no currículo

Acessibilidade não é exclusiva de design. Um redator que escreve títulos em ordem lógica, um dev que nomeia ícones e um analista de suporte que orienta o cliente a ampliar a tela trabalham com o mesmo assunto. Escreva a parte que você controla e deixe de fora a que pertence a outra área.

Antes: Experiência com acessibilidade no atendimento.

Depois: Atendi clientes que usavam leitor de tela no chat de suporte e escrevi um roteiro de passos sem depender de imagens, com cada ação descrita em texto. As transferências para o segundo nível caíram nesse canal.

Se você é designer, o próximo passo é comparar a sua linha com os termos que as vagas da área pedem junto de acessibilidade. A página de palavras-chave de designer UX/UI mostra esses termos, e a seção de UX explica como eles se encaixam no currículo de UX designer e product designer.

Auditoria só entra no currículo quando ficou registrada

A palavra auditoria costuma ser usada para qualquer revisão. Para o recrutador, ela significa uma verificação com escopo e resultado escritos. Se você fez uma checagem pontual de uma página, escreva revisão. Se preparou um relatório para a equipe, cite o escopo: quantas telas, contra quais critérios e o que o relatório gerou.

Antes: Auditoria de acessibilidade em sites.

Depois: Auditoria de acessibilidade em oito páginas de um portal de cursos, com checklist de teclado, contraste e textos alternativos de imagens. O relatório foi entregue ao time de desenvolvimento, que corrigiu as falhas críticas no ciclo seguinte.

Se o trabalho foi voluntário ou de portfólio, escreva como projeto e descreva o escopo do mesmo jeito. O formato da frase não muda pela remuneração, e um escopo bem descrito vale mais que um cargo que não diz o que foi feito.

O que fazer agora com o seu currículo de acessibilidade

A linha que vale é a que descreve uma decisão sua e o efeito dela. Sem isso, a palavra fica no currículo sem nada que a sustente, e na primeira pergunta sobre WCAG o candidato precisa inventar uma resposta. Antes de enviar, pegue a vaga, copie os termos de acessibilidade que ela traz e confira quais já estão no seu texto. A análise gratuita do AjustaCV faz essa comparação com o texto da vaga: não pede cadastro e mostra quais termos da vaga o seu currículo já tem e quais faltam. Depois disso, a decisão sobre cada termo ausente é sua: escreva só o que você fez.


Perguntas frequentes

Acessibilidade vale colocar no currículo se eu não sou designer?

Vale, se você fez alguma parte do trabalho. Desenvolvedores, redatores e quem atende clientes em canais digitais podem descrever o que controlaram, como nomes acessíveis em botões, títulos em ordem lógica ou um roteiro de suporte que não depende de imagens. O que não vale é a palavra solta numa lista de habilidades, porque sem uma ação ao lado ela não diz o que você fez.

Preciso decorar a WCAG para escrever acessibilidade no currículo?

Não. Para escrever a linha, basta saber o que você verificou, como contraste, foco do teclado, nomes de botões ou textos alternativos de imagens. Se a vaga pede a norma pelo nome, confirme se você aplicou algum critério dela. Se estudou sem aplicar, escreva o curso na seção de formação e deixe a experiência para o que realmente fez.

Curso de acessibilidade digital conta como experiência?

Não como experiência. O curso aparece na seção de formação, com instituição e carga horária. Para virar experiência, ele precisa ter sido aplicado num projeto, mesmo pessoal: um site que você auditou ou uma tela que refez. Escreva isso como projeto e cite o escopo, como o número de telas revisadas e os critérios conferidos.

Como provar acessibilidade se o projeto é privado e não tenho portfólio público?

Descreva o trabalho sem o link e cite o que for possível: o tipo de produto, quantas telas revisou, quais critérios verificou e o efeito na equipe. Essas partes sustentam a conversa na entrevista. Se o cliente exige sigilo, não cite o nome dele e fique com a descrição do processo, que não revela nada que o contrato proíbe.

Qual versão da WCAG escrever no currículo?

Escreva a referência que você realmente usou. Se o time seguia uma versão, copie essa versão. Se a escolha foi sua, escreva a versão e o nível que aplicou. O problema que a entrevista expõe não é a versão errada, e sim o nível escrito sem que nenhum critério dele tenha sido verificado.

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