Negociação no currículo costuma aparecer como uma palavra solta na lista de competências, e quem lê não tem como saber se você fechou um desconto de dez mil reais ou se só esteve na sala quando alguém fechou. Para a vaga que pede negociação, o currículo precisa mostrar o que foi negociado, com quem, dentro de qual limite e com que resultado. Este guia mostra como escrever cada uma dessas partes com fatos que você consegue defender numa conversa sobre o caso.
O que a palavra negociação prova sozinha?
Quase nada. Escrever negociação numa lista de habilidades diz que você acredita ter a habilidade, e o recrutador já presume isso de quase todo candidato. A linha que prova tem três partes: um objeto (preço, prazo, valor de uma dívida), uma contraparte (fornecedor, cliente, devedor) e um resultado medido. Se uma dessas três falta, a palavra continua sendo adjetivo, por mais bem colocada que esteja.
Qual preço, prazo ou margem você mexeu?
Cada negociação tem um objeto, e ele precisa aparecer com número. Escolha o que a sua função mexia de verdade. Em compras, costuma ser preço unitário ou condição de pagamento. Em vendas, desconto e margem. Em cobrança, prazo e valor recuperado.
Antes: Negociei com fornecedores para reduzir custos da área de compras.
Depois: Negociei com os seis fornecedores de embalagem da linha de envase e reduzi o preço unitário em 8%, sem trocar de fornecedor no período.
A segunda versão tem objeto (embalagem, linha de envase), contraparte (seis fornecedores), número (8%) e um cuidado (sem trocar de fornecedor). Essa última parte responde à pergunta que a entrevista costuma fazer logo depois: o desconto se sustentou, ou foi uma troca de fornecedor disfarçada de negociação? Se negociar com fornecedores é parte fixa da sua rotina, o guia de compras e gestão de fornecedores mostra como escrever a cotação e a avaliação. Para economia no orçamento, veja orçamento e controle de custos.
Em cobrança, o número muda de lugar. O que importa é o prazo e o quanto voltou a ser pago, como neste caso:
Antes: Renegociei dívidas de clientes em atraso.
Depois: Renegociei o prazo de 41 contratos em atraso para parcelas de até seis meses, e 33 deles voltaram a pagar em dia nos três meses seguintes.
Se o seu resultado está em prazo e não em valor, escreva o prazo. Ele é um resultado de verdade, e o recrutador entende o que ele significa para o caixa. Quando não há número fechado, o método para descrever o resultado é o mesmo de qualquer experiência, como mostra o guia sobre como descrever experiência com resultados e números.
Como escrever compras, vendas e cobrança sem misturar?
As três são negociações, mas o recrutador lê cada uma de um jeito. Escreva a área em que você negociou e os termos que ela costuma discutir.
- Compras. Negociação com fornecedor, sobre preço, condição de pagamento, prazo de entrega ou garantia. Diga o volume que você comprava, porque um desconto sobre um pedido pequeno não tem o mesmo peso que um sobre o contrato anual.
- Vendas. Negociação com cliente, sobre desconto, condição de pagamento e escopo do contrato. Escreva a margem que você preservou junto com o desconto, porque um desconto isolado não diz se a venda foi boa.
- Cobrança. Negociação com devedor, sobre parcelamento, acordo e prazo. Conte os acordos fechados e o percentual da carteira que voltou a pagar, mas nunca o nome do devedor nem o número do contrato.
Se você vende, este exemplo de currículo de executivo de vendas mostra como essas linhas se organizam. Para quem cuida de contas de clientes com carteira própria, o guia sobre currículo de executivo de contas e key account B2B trata do mesmo tipo de linha.
Quem tinha o poder de decidir, e até onde?
Negociar quase sempre acontece dentro de um limite. Alçada é o nome que as empresas dão ao limite de decisão de cada cargo, como o desconto máximo que um vendedor pode dar sem passar pela gerência. Se você tinha alçada, escreva o limite. Se o que passava desse limite ia para outra pessoa, diga isso também, porque mostra que você conhecia a regra e a aplicava.
Antes: Fechava condições comerciais com clientes.
Depois: Fechava condições de pagamento com clientes dentro da alçada de desconto de até 5%, e encaminhava à gerência os pedidos acima disso, cerca de um em cada dez.
Quem lê a segunda linha sabe o que você decidia sozinho e o que não decidia. Isso vale mais do que parecer que você fechava tudo, porque um candidato que conhece o próprio limite é o que o gestor confia para negociar sem supervisão.
E se você só acompanhou a negociação de outra pessoa?
Escreva o acompanhamento com o verbo que ele merece. Preparei a planilha de custos, levei as propostas à mesa e registrei a contraproposta são frases verdadeiras e úteis, e muitas vagas de compras e de cobrança começam justamente aí. O que não se deve escrever é negociei, porque a entrevista pergunta o que você disse na reunião, e um verbo maior do que a sua parte desmonta o resto da linha.
Se a negociação que você acompanhou era a sua própria, de salário ou de condições de contratação, o caso é outro. O guia sobre pretensão salarial no currículo e na entrevista separa essas duas situações.
Onde achar os números antes de escrever a linha?
Os números costumam estar no trabalho, e não na memória. Antes de escrever, reúna o que você tem à mão, nesta ordem:
- Planilhas de compras e de contratos. Elas guardam preço antigo e preço novo, com data. A diferença entre as duas colunas é a linha do currículo.
- E-mails de proposta e de aceite. Um aceite com data e valor vale mais do que a sua lembrança do resultado.
- Relatórios de carteira ou de inadimplência. Eles mostram quanto estava em atraso e quanto voltou a ser pago. Use o percentual, e deixe de fora os nomes.
- Metas e comissões. Se a sua meta de desconto ou de recuperação estava registrada, o atingimento vira o resultado, com o período ao lado.
Se nada disso existe, a negociação ainda não tem prova, e a saída é fazer uma de verdade. Peça um desconto a um fornecedor da sua própria área, ou reabra um prazo com um cliente da sua carteira, e registre o pedido, a resposta e a data. Com isso você tem uma linha verdadeira e uma história para contar, sem inventar nada.
Sem número, a negociação fica no adjetivo
A regra que resume este guia é uma só: escreva cada negociação com objeto, contraparte, limite e resultado, e só o que você fez de fato. Sem isso, a primeira pergunta da entrevista, quanto você conseguiu e quem aprovou, desmonta a linha, e o resto do currículo perde credibilidade junto.
Para checar se os termos da vaga aparecem no seu texto antes de enviar, use a análise gratuita do currículo. Ela não exige cadastro, compara o currículo com a descrição da vaga que você colar e mostra quais termos da vaga o seu texto já tem e quais estão faltando.
Perguntas frequentes
Negociação no currículo precisa de número?
Precisa de algum sinal de escala ou de resultado. O melhor é o número exato, mas, se ele for confidencial, use a variação em percentual, o tamanho da carteira ou a quantidade de contratos. O que não funciona é deixar a linha só com o verbo. Quem lê “negociei com fornecedores” não sabe se foram dois ou quarenta, nem se houve ganho.
Posso escrever negociação se só participei das reuniões?
Escreva o que você fez, como preparar a planilha de custos ou levar a contraproposta à mesa, e não o verbo do que a equipe fechou. Negociação é o que você conduziu do começo ao fim. A entrevista costuma perguntar o que você disse na reunião, e a resposta precisa bater com o verbo do currículo.
Como escrever negociação de cobrança no currículo?
Conte os acordos fechados, o valor recuperado ou o percentual da carteira que voltou a pagar em dia. Não escreva o nome do devedor nem o número do contrato, porque o currículo passa por muitas mãos e não é lugar para dados de cliente. A linha “acordos de parcelamento com clientes em atraso” já mostra a função sem expor ninguém.
Negociação entra na seção de habilidades ou na experiência?
Na experiência, como resultado de uma função, porque é lá que o recrutador confere. A seção de habilidades pode repetir a palavra para bater com a vaga, mas só depois que uma linha de experiência a descreve. Uma habilidade sem linha correspondente é a parte do currículo que a entrevista desfaz primeiro.
O que escrever se a vaga pede negociação e eu nunca negociei nada formal?
Não escreva que negociou. Procure no trabalho atual uma situação real, como pedir desconto a um fornecedor, reabrir um prazo com um cliente ou combinar uma entrega fora do padrão. Anote o que pediu, o que obteve e em quanto tempo. Com um caso documentado, você tem uma linha verdadeira e uma história para contar na entrevista.
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