Git aparece em boa parte das vagas de desenvolvimento, e quase sempre aparece como uma palavra numa lista de ferramentas, sem frase ao redor. O recrutador que lê essa lista não sabe se a pessoa criou um repositório para estudar ou se trabalhou num time que revisava cada mudança antes de publicar. Git no currículo ganha peso quando mostra o fluxo: em que branch você trabalhou, como uma mudança chegou à branch principal, quem a revisou e o que fez quando havia conflito. Este guia mostra como escrever cada parte e o que fazer quando o seu uso foi sozinho.

Escrever Git numa lista de ferramentas não mostra como você o usou

A lista de ferramentas prova que a palavra está no texto, e nada além disso. Coloque o Git na linha da experiência em que ele apareceu, junto da entrega que ele tornou possível. Uma frase que diz o que foi entregue e por qual caminho responde à pergunta que o recrutador faz ao ler a palavra: essa pessoa trabalhou com código de outros, ou só instalou a ferramenta?

Antes: Git, GitHub e controle de versão.

Depois: Desenvolvi o módulo de notificações em branches por funcionalidade e entreguei cada uma por pull request, com revisão de um colega antes da fusão na branch principal.

Se a vaga pede a ferramenta pelo nome, use o nome exatamente como a vaga escreve. A página de palavras-chave para desenvolvedor full stack mostra os termos que essas vagas costumam trazer, e a descrição da própria vaga mostra as palavras do fluxo que o time espera. Se o campo de experiência for o da Gupy, com regras de preenchimento próprias, o guia de campo de experiência da Gupy mostra como ele se encaixa.

Qual fluxo o time seguia, e como descrevê-lo sem jargão

Descreva o fluxo que a equipe usava, porque é a parte que o recrutador técnico reconhece de imediato. Três modelos aparecem com frequência, e você não precisa saber o nome oficial de cada um, só qual era o seu:

  • Branch por funcionalidade. Cada tarefa ganha uma branch própria, criada a partir da principal, e volta para ela por pull request depois da revisão. É o modelo mais comum em times pequenos e médios.
  • Git Flow. Há branches permanentes de desenvolvimento e de release, e as correções urgentes saem de uma branch de hotfix. É comum em produtos que publicam em ciclos fixos.
  • Trunk-based. Todo mundo integra à principal em commits pequenos e frequentes, com branches de vida curta e funcionalidades escondidas por flags. Exige uma bateria de testes forte, e vale dizer isso quando a descrição for essa.

Escreva o modelo só se tiver certeza de qual era. Se o time usava branch por funcionalidade e você diz trunk-based, a pergunta seguinte é sobre flags, e aí a diferença aparece. Para a linha do currículo, basta algo como trabalhei com branches por funcionalidade e entrega por pull request. Se o seu trabalho foi em back-end, o guia de currículo de desenvolvedor back-end mostra como escrever a linguagem e o framework junto desse fluxo.

Pull request com descrição clara prova o que você entregou

O pull request é o registro de uma entrega, e a descrição dele é o que o revisor lê antes do código. Uma boa descrição diz qual problema a mudança resolve, o que mudou e como alguém pode testar. No currículo, o que importa é o resultado dessa entrega, e não o número de pull requests abertos.

Antes: Abri mais de cinquenta pull requests no projeto.

Depois: Entreguei a migração do cadastro de clientes em oito pull requests pequenos, cada um com teste de regressão, sem parar o atendimento.

Se for citar um número, faça-o da entrega: o tamanho do módulo, o prazo ou a quantidade de usuários afetados. Pull request é o veículo, e a linha precisa dizer o que ele carregou. Se o fluxo termina num pipeline que roda a cada pull request, o guia de CI/CD no currículo mostra como descrever essa etapa.

Revisar código de colegas vira linha própria quando você deu o parecer

Revisar código é uma competência separada de escrevê-lo, e vagas de nível pleno e sênior costumam pedir as duas. Se você aprovou ou pediu mudanças no código de outras pessoas, escreva a revisão como função própria. Participar de code review diz que você estava na lista de revisores. Revisar diz o que você fez com ela.

Antes: Participação em code review.

Depois: Revisei pull requests da equipe de pagamentos, com foco em tratamento de erro e testes, e fui um dos dois revisores obrigatórios para mudanças no esquema do banco.

Só escreva a revisão se você fez de fato, com comentários na plataforma e pedidos de mudança que chegaram ao autor. Quem perguntar como você revisou uma mudança espera ouvir um caso concreto, e quem só leu pull requests sem comentar não tem esse caso.

Conflito de merge só vira prova de trabalho em equipe quando você explica o caso

Conflito acontece quando duas pessoas alteraram as mesmas linhas, e resolver um deles é trabalho real. Mas a frase resolvi conflitos de merge não diz nada, porque todo time que usa Git tem conflito. O que diferencia é o caso: o que estava em jogo, quem era a outra pessoa e como vocês decidiram qual mudança ficava.

Antes: Resolução de conflitos de merge.

Depois: Resolvi conflitos entre a reformulação do fluxo de login e a branch de correções de segurança, alinhando com o autor de cada lado qual regra prevalecia antes da fusão.

Cuidado com rebase. Ele reescreve o histórico, e isso é perigoso numa branch que outras pessoas usam. Escreva rebase só se você já o usou em branch compartilhada e sabe explicar por que um histórico publicado não deve ser reescrito. Se você só usou o comando depois de ler um tutorial, deixe a palavra de fora, porque é nela que a primeira pergunta técnica costuma começar.

Versionamento e releases entram como entrega quando têm dono

Em times que publicam versões, o trabalho com tags e correções urgentes mostra que você esteve perto da produção. Escreva o processo, e não a palavra versionamento: quem cortava a versão, como a tag era criada e como uma correção urgente chegava ao ambiente sem esperar a próxima entrega.

Antes: Versionamento de código com Git e tags.

Depois: Cortei as releases semanais com tags de versão e publiquei duas correções urgentes no mesmo dia, ambas revisadas pelo líder técnico antes do deploy.

Se você não tinha esse papel, não o atribua. Acompanhar a montagem de uma release também é experiência. Basta usar o verbo que descreve o que você fez, como acompanhei ou ajudei, sem assumir o papel de quem cortava a versão.

Sem equipe, o repositório pessoal precisa mostrar o mesmo fluxo, com verdade

Se você estudou ou fez projetos sozinho, o fluxo ainda pode aparecer no currículo, desde que seja o que você de fato seguiu. Crie uma branch para cada funcionalidade do projeto, escreva a descrição de cada pull request contra a branch principal e mantenha o histórico de commits com mensagens que explicam a mudança. Esse histórico é o que um recrutador técnico abre quando clica no seu link.

O que não funciona é inventar uma equipe. Descrever um projeto pessoal como trabalho de time é a linha que a entrevista desfaz na primeira pergunta sobre quem revisou cada pull request. O guia sobre currículo de programador com GitHub e projetos cobre o que o recrutador encontra quando abre a conta, e o guia sobre links no currículo mostra onde o endereço deve ficar. Este texto fica com o fluxo.

O que fazer agora com o seu currículo

Releia a seção de experiência e procure a palavra Git. Se ela aparece sem verbo e sem entrega, troque a linha por outra que diga o que você fez com a ferramenta, em qual fluxo e com que resultado. Depois confira se cada projeto ou emprego diz quem revisou e o que aconteceu com a mudança quando ela chegou.

A consequência de deixar a palavra solta é o recrutador ler Git, não encontrar nada que a sustente e passar para o próximo currículo. A vaga de desenvolvimento pede o processo de trabalho junto da ferramenta, e um texto que mostra só a ferramenta fica para trás. Para conferir se os termos da vaga já aparecem no seu texto, cole a descrição dela na análise ATS gratuita. Ela não pede cadastro e mostra quais termos da vaga o seu currículo já tem e quais faltam.


Perguntas frequentes

Git no currículo é a mesma coisa que GitHub?

Não. Git é o sistema de controle de versão que roda na sua máquina e registra o histórico de cada mudança no código. GitHub é um serviço que hospeda repositórios Git e acrescenta pull requests, revisão e páginas. Um currículo pode citar os dois, mas Git descreve o que você fez com o código, e GitHub descreve onde ele ficou guardado. Se a vaga pede os dois, escreva o uso de cada um.

Preciso listar comandos como rebase, stash e cherry-pick no currículo?

Não precisa, e em geral não deve. Comandos não mostram o que você entregou. Liste um comando só se a vaga o pede e se você já o usou numa situação real, de preferência com uma frase sobre o caso. Rebase numa branch compartilhada é assunto de entrevista técnica, então só o escreva se conseguir explicar quando ele não deve ser usado.

Como colocar Git no currículo se eu nunca trabalhei em equipe?

Use um projeto próprio e descreva o fluxo que você seguiu de verdade: uma branch por funcionalidade, pull request para a branch principal com descrição e histórico de commits legível. Não escreva que houve revisão de colegas se ela não existiu. Um recrutador pode abrir o repositório, e a linha do currículo precisa bater com o que ele encontra lá.

Quantos pull requests devo citar no currículo?

Nenhum número é o certo. A quantidade diz pouco, porque um pull request pode trocar uma linha e outro pode reescrever um módulo inteiro. Descreva duas ou três entregas pelo que mudaram, com o tamanho ou o impacto, e deixe a contagem de fora. Um número faz sentido quando ele conta uma entrega específica, como oito pull requests para migrar um cadastro.

Git entra na seção de habilidades ou na de experiência?

Nas duas, com funções diferentes. A seção de habilidades guarda o nome da ferramenta, para a palavra aparecer no texto. A experiência guarda o uso, com verbo, fluxo e efeito, para o recrutador entender como você trabalhou. Se Git aparece só na lista de habilidades, a palavra existe, mas nada no texto a sustenta.

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